
A história de Ausar, Auset e Set
Nos primórdios do início do mundo, Ausar, o primeiro faraó dos tempos imemoriais, estava casado com Auset. A sua glória estava espalhada pelo mundo e Set, irmão de Ausar, passou a sentir ciúmes e, tomado pelo desejo de tornar-se faraó, arquitetou um plano para destronar o irmão. Set atraiu o irmão para um banquete e lhe pediu que experimentasse um sarcófago. De bom grado, Ausar deitou e foi aprisionado e lançado no Rio Nilo. Na ausência de Ausar, Set assumiu o trono e levou sua esposa Nebt Het para governar o Kemet ao seu lado.
Com o desaparecimento do marido, Auset desesperada começou uma busca implacável. Ela o achou e usando seus poderes, transformou-se numa pequena ave e reanimou o coração do marido tocando-lhe o peito com suas patas e batendo as asas de andorinha. Então, o deus do caos, teve seu ciúme e inveja acrescidos de mais ódio, usando toda sua força para partir o irmão em quatorze pedaços e espalhá-los por todo o país.
Podemos compreender que Ausar, Set e Auset são expressões de sentimentos e formas de agir das pessoas.
Set, deus do caos e da guerra, nos remete à sede pelo poder. De acordo com Carl Gustava Jung, o poder é o inverso do amor, onde um está o outro fica ausente. Nos estudos de geopsicologia, a busca por controle e domínio impede que os nutrientes afetivos alimentem o amor. Set representa o nosso desejo por controle e domínio, mesmo que isso custe o nosso bem-estar. Ausar representa a nossa natureza. Auset representa, ao mesmo tempo, o amor e a arte de amar.
Amor é restaurador de algo muito íntimo que perdemos quando nos confundimos com a vontade de poder. É importante dizer que na filosofia kemética, o coração é a sede dos pensamentos, emoções e do caráter. Deste modo, o amor é o modo de reestabelecer uma união entre nossos pensamentos, emoções e o nosso caráter. Amar serve para que possamos manter sintonia com nós mesmos.
Vamos fechar com bell hooks, retomando o trecho de abertura. O amor se manifesta através de cuidado, compromisso e confiança. É preciso confiar em si para poder se aproximar de outra pessoa com abraços que apertam sem prender.
Sobre o Autor: Renato Noguera é doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor do Departamento de Educação e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, pesquisador do Laboratório de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas e coordenador do Grupo de Pesquisa Afroperspectivas, Saberes e Infâncias. Com pesquisas nas áreas de educação (estudos das infâncias e com crianças) e filosofias africanas e indígenas, escreveu Mulheres e deusas: como as divindades e os mitos femininos formaram a mulher atual e O ensino de filosofia e a Lei 10.639. Noguera também é autor, dramaturgo e roteirista de histórias infantis.