A história completa da idealização até o dia do lançamento
Por Fillipe Dornelas
A jornada até o DENGA LOVE
Sempre fui uma pessoa que cria soluções para problemas que percebo poder resolver de alguma forma. Esse “espírito ajudador”, de alguém que gosta de servir, aprendi com minha avó, Dona Dorinha, que sempre teve um coração maior que ela.
Quando comecei minha vida amorosa e a pensar em estar junto de alguém, minhas possibilidades de conhecer pessoas ficavam limitadas aos lugares que eu frequentava. Sou um jovem dos anos 90, criado nas quebradas de São Gonçalo, no tempo da internet discada. Nossa “rede social” era a rua, os amigos, as festas para as quais éramos convidados. Mas havia um problema: eu nunca tive condições financeiras de frequentar os lugares onde, socialmente, estavam as pessoas com quem eu gostaria de me relacionar. Além disso, sempre fui muito nerd, daqueles que não se comunicava bem e não socializava o suficiente.
Nos anos 2000, por conta das famosas Lan Houses, conheci as saudosas salas de bate-papo da UOL. Acredito que ali tive minha primeira experiência com redes sociais, antes mesmo do Orkut. Fiz amizades que mantenho até hoje. Logo depois, veio o MSN Messenger, onde o foco era conhecer gente pessoalmente e depois continuar a conversa online. Usei o MSN desde a versão 4.0 até seu último dia, quando redes sociais como Orkut e Facebook começaram a ter chat integrado.
Experiência com Apps
A vida foi passando, conheci muita gente virtualmente e algumas dessas pessoas pessoalmente. Em 2012 entrei na faculdade de Computação. Já tinha um celular Android e a moda era “tudo em aplicativo”. Nos cursos de Computação somos estimulados a resolver problemas reais e, nesse momento, já queria criar algo na Rural. Pensava num app de relacionamento entre alunos porque a gente só conhecia gente nova nas festas ou na fila do bandejão. Na época, a ideia não saiu do papel por falta de conhecimento e estrutura. Fiz outras coisas, mas guardei essa vontade.
Quando os aplicativos de relacionamento ficaram famosos no Brasil, achei interessante participar para conhecer gente nova. Logo percebi que, mesmo tentando de tudo (mudar a bio, trocar fotos, ser criativo) eu tinha pouca sorte. Uma vez, no ônibus a caminho do trabalho, curti algumas pessoas e tive um match. Conversamos, e em certo momento ela perguntou onde eu morava. Disse que era de São Gonçalo. Ela respondeu que era de Niterói e achava São Gonçalo “muito distante”. Não demorou e o match sumiu. Aquilo me deu um choque: além da dificuldade de conseguir um match, havia outras barreiras: preconceitos e distância social, que impediam alguém de me conhecer.
Em 2017, cheguei a namorar uma pessoa que conheci num desses apps. Depois, quando fiquei solteiro de novo, notei como as plataformas mudaram e surgiram concorrentes. No final de 2018, vi um story de um influenciador negro falando sobre um app de relacionamento; achei a proposta interessante e, como estava solteiro, baixei para testar. Logo percebi que o app tinha poucas pessoas e uma interface pouco convidativa, mas conheci alguém. Conversamos e marcamos um encontro num barzinho perto dos dois. Houve beijos, mas não deu certo. Pouco depois, saí daquela cidade e fui morar em outro estado.
A semente Dengosa
Em 2020, no primeiro mês da pandemia, já morava em São Paulo e retomei contato com a pessoa que conheci naquele app. Propus um encontro; nos reencontramos e ficamos juntos por um mês, sempre lembrando como nos conhecemos. Por causa da pandemia (e porque ela morava no Rio) não deu para continuar; só em 2021 nos aproximamos de novo, quando voltei a morar no Rio. Nesse meio tempo, o app de 2018, que já tinha pouca gente, por algum motivo desapareceu das lojas.
Voltando aos apps mais populares, passei por situações inusitadas e desagradáveis. Uma vez, a regra era que a mulher mandasse a primeira mensagem; fiquei esperando até que recebi: “você tem cara de filhinho de mamãe que ela dá tudo o que você pede!”. Eu, homem preto, de baixa renda, morador de São Gonçalo, que conquistei tudo muito com estudo, ouvir aquilo me deixou frustrado. Desfiz o match, denunciei o perfil e segui a vida.
Outra experiência: trocamos mensagens amistosas — “Oba, bora começar a semana com um match bom!” — e, algumas mensagens depois, ela mandou: “preciso te contar uma coisa! Eu sou casada há três anos e essa é minha primeira viagem sozinha desde o casamento; queria muito ter uma experiência louca com você”. Mesmo deixando claro que procurava relacionamento sério, encontrei pessoas que me sexualizavam, ofendiam ou simplesmente deram muito ghosting.
Como já tinha namorado uma mulher preta e estava me aprofundando em cultura e vivências negras, quis me relacionar com mulheres pretas. Acho que foi na pandemia que esse desejo ganhou forma: ver no Brasil uma solução pensada para conectar pessoas negras de forma segura e significativa. Aliás, nesse período me relacionei com uma mulher preta e até moramos juntos por um tempo (mas essa é outra história).
Quando a chave virou
Assim como num carro, quando a chave vira tudo começa a colaborar. Foi assim quando me vi desmotivado no emprego, solteiro e com vontade de fazer algo que tivesse impacto real. Minhas sessões de terapia frequentemente giravam em torno da insatisfação. Eu só fazia o que mandavam na área de computação, sem criar soluções que impactassem pessoas.
Antes de seguir com a ideia, tentei processos seletivos para empresas internacionais, sem sucesso. Isso só aumentou minha frustração. Planejei uma viagem ao exterior e, pouco antes de partir, em 29 de março de 2022, chamei Maria Gal para conversar, a única pessoa preta influente que eu conhecia naquele momento. Contei toda a ideia e recebi palavras de motivação. Conversamos também sobre custos iniciais. Ela me incentivou muito e sou eternamente grato pelo apoio. Combinamos que eu enviaria um texto para ela encaminhar a outra pessoa preta influente que poderia ajudar.
Mesmo fora do país, meu coração estava totalmente voltado a criar essa solução. Enquanto estudava possibilidades e usava apps com outro olhar, percebi que sozinho teria muita dificuldade. Além da tecnologia, havia demandas jurídicas, publicidade, criatividade e muito mais.
Uma viagem de muitas decisões
Há até uma foto que marca a noite em que contei publicamente a ideia para alguém, imagem que guardo até hoje.

Voltei da viagem emocionalmente quebrado. Estava superando um término, insatisfeito com o trabalho e triste com minha área de atuação. Em conversas com Maria Gal, ela disse que a pessoa para quem encaminhou não respondeu. Eu também apresentei a ideia para outras pessoas negras influentes na mídia, e muitas nem me deram chance. Mesmo assim, a vontade de fazer acontecer era tão grande que comecei a rascunhar funcionalidades do app e os problemas que ele deveria resolver.
Entrei no Twitter para pedir indicação de designers que pudessem ajudar a criar uma apresentação. Uma amiga, Andreza Rocha, mencionou a Babi, que entrou em contato. Naquele momento, não fechamos contrato. Eu ainda estava em CLT e prestes a pedir demissão. Combinei de chamar a Babi cerca de um mês depois.
Comentei com meu chefe que queria sair. Poucos dias depois, fui desligado. Um dia depois, a Babi entrou em contato novamente. O universo agiu perfeitamente.

A divisão de águas — nome e identidade
Depois de escrever bastante sobre funcionalidades e conversar com a Babi, contei que queria algo para o público negro, mas ainda não tinha registrado a ideia nem a especificado totalmente. Em reunião, falei que seria algo para pessoas negras; a conversa fluiu naturalmente. Aí veio o bate-papo decisivo.
Babi perguntou: “Qual o nome do que você está construindo?”
Eu respondi: “Cacau.”
Ela perguntou: “Mas por que Cacau?”
Expliquei que penso que o cacau é base para muitas coisas: chocolate, manteiga de cacau para hidratação, usos medicinais, artesanato… mas ninguém diz “tô comendo cacau” quando come chocolate. Assim é o preto na sociedade: base de tudo e ninguém reconhece. Quero um lugar que coloque o ‘cacau’ como protagonista e símbolo de felicidade.
Babi disse: “Entendi, muito legal… mas você não acha que pode ficar com uma pegada muito alimentícia?”
Eu respondi: “É, nem tinha me ligado nisso. Pode ser um problema. Sinceramente, não sabia o que colocar no lugar.”
Ela falou: “Posso fazer uma pesquisa e sugerir nomes?”
Eu disse: “Pode sim, vai lá!”
Ela levou alguns dias e pensou em cores, pesquisou significados, testou tipografias e deu seu toque de mágica. Parafraseando Dona Leci Brandão: ali nascia um novo ídolo. Babi manteve a essência do cacau e trouxe um significado ligado à nossa identidade negra, conectando o símbolo ao formato característico dos nossos lábios. Foi simplesmente sensacional.

Ainda nem tinha começado direito
Com nome, identidade visual e algum código escrito, percebi que ainda faltava muita coisa: divulgação pesada, jurídico, financeiro e marketing. Eu estava desempregado, usando o dinheiro da rescisão para me sustentar enquanto trabalhava no projeto. Paguei a Babi pela identidade visual e mergulhei de cabeça no que faltava.
Quando voltei ao Rio em 2021, morei com meu amigo Ítalo Cunha, advogado e empreendedor. Éramos dois tentando nos manter longe da casa dos pais. Quando precisei de suporte jurídico, fui direto falar com ele. Ele me ajudou com o registro da marca, constituição da empresa e documentos legais, contratos de serviço e confidencialidade para os devs. Gratidão eterna ao Ítalo e à SAFIE, que desde o início acolheu a Denga e ajudou no registro e trâmites jurídicos.
Escalando o time
Desde 2015 me aprofundei em empreendedorismo, primeiro como intraempreendedor em empresas. Inclusive, sou lembrado pelo ex-chefe na IBM como “o estagiário mais empreendedor que ele já teve”, o que me ajudou a entender processos e boas práticas. Ao mesmo tempo, os lugares começaram a ficar pequenos para minhas vontades, e várias mãos foram importantes na construção do Denga.
Desde 2019 faço parte de um grupo seleto de desenvolvedores, o Google Developers Experts, que me ajudou a conhecer muita gente e ter networking valioso. Uma das primeiras pessoas que convidei para o time foi a Ana, funcionária do Google, que cuidou da comunicação. Ana participou do lançamento, contribuiu por quase seis meses, integrou a sociedade, mas depois vendeu sua participação e saiu do dia a dia.
Sabia que para lançar o app precisava de mais do que comunicação: marketing de influência e tecnologia. Contei com amigos que fiz pelo caminho. Lucas e Gabriel foram anjos que emprestaram seu tempo para desenvolver partes do código por valores simbólicos, quase caridade. Sou eternamente grato a eles.
A primeira pessoa a quem contei presencialmente sobre o Denga, depois do psicólogo, foi a Maria Gal. A pessoa que ela tentou conectar não respondeu, o que me levou a buscar outros contatos. Muitos não responderam e alguns enrolaram tanto que desisti. Hoje, algumas dessas pessoas se arrependem. Uma que respondeu e com quem conseguimos conversar foi o Roger.


Roger demorou meses para decidir se entraria, e nesse tempo eu tocava os trâmites: constituição da empresa, desenvolvimento, contratos. Como ainda não tínhamos designer oficial, convidei a Babi para o projeto. Ela topou sem pensar duas vezes. Viramos sócios sem nos conhecer pessoalmente, tudo formalizado digitalmente. Faltando cerca de duas semanas para o lançamento, consegui contato final com o Roger. Ele aceitou ser diretor de marketing e PR, ajudando na divulgação. Roger ficou quase dois anos, contribuindo em várias frentes. Em setembro de 2024 saiu da sociedade, tendo 100% da participação adquirida.
O Time formado, app disponível
Com equipe, app nas lojas Google e Apple, empresa constituída e amigos testando, parecia tudo pronto. Entrei em contato com portais de mídia focados em pessoas negras para orçar matérias sobre o lançamento. Alguns não responderam, mesmo querendo pagar. Mas Notícia Preta e Alma Preta foram sensacionais. Nos atenderam bem, recomendaram contatos e até foram à festa de lançamento.
O lançamento
No dia 14 de outubro de 2022 entendi o sentido de “só acaba quando termina”. Tudo estava pronto: testes, textos, comunicação alinhada, artigos e live marcada para as 10h. Roger começou a live, anunciou a abertura e chamou nosso perfil. Usuários começaram a seguir. Em poucas horas houve superlotação. Quem criava conta não conseguia usar o app. Mais de 10 mil pessoas entraram nas primeiras horas. No mês foram mais de 30 mil, meta de três meses atingida em poucos dias.

Na primeira semana, um bug exigiu várias atualizações. A tecnologia inicial não permitia encontrar usuários de forma efetiva. Criamos soluções paliativas que duraram meses até termos recursos para refatorar. Desde então, o Denga foi reescrito pelo menos três vezes, sempre com tecnologias mais atuais, padrões melhores e foco em entregar valor. Todas as melhorias foram custeadas pelos usuários que optaram por planos premium.
Foram muitas noites em claro, reuniões infinitas, pedidos de ajuda, conversas longas, e-mails, e muita motivação envolvida pelo único propósito que sempre nos manteve motivados: ver pessoas negras no lugar de felicidade.
A todas as pessoas que já fizeram parte do time Denga: nosso muito obrigado. De coração mesmo. É com respeito que sempre lembro de todo mundo e esperamos de verdade que vocês estejam alcançando todos os objetivos.
Denga Love é isso desde o significado da sua palavra, que vem lá do Kikongo. É um gesto carinho, é encontrar acolhimento. Por isso as palavras “dengo” e “chamego” são muito usadas por nós. Somos o primeiro app de relacionamento do país exclusivamente criado por pessoas negras e para pessoas negras. Nós criamos uma solução real para uma necessidade real. Não por diversão e sim por anseio profundo de nossos usuários.
Hoje já formamos milhares de casais, centenas de famílias e, pelas nossas contas, ao menos 35 crianças já estão no mundo a partir de casais formados pelo Denga Love. Inclusive, o primeiro bebê de um casal formado pelo DENGA me fez chorar copiosamente, como uma criança mesmo. Eu gritei dentro de casa: TÁ DANDO CERTO!
Nosso propósito é e sempre será muito maior. Não estamos nessa por fama, não queremos reconhecimento pessoal, seria muito raso se fosse por isso. Nós queremos ver as pessoas negras desse país unidas e seguindo seus próprios objetivos.