Quando falamos de relacionamentos, precisamos considerar que todas as nossas relações são atravessadas por muito mais do que sentimentos. Eles carregam história, atravessam corpos e repetem padrões que, muitas vezes, a gente nem percebe. Quando penso nas relações amorosas entre pessoas pretas, que consiste na maioria dos meus pacientes, não consigo deixar de olhar para os atravessamentos que o racismo estrutural impõe, até na forma como escolhemos e somos escolhidos para amar.
A pergunta é incômoda, mas precisa ser feita: por que, apesar da representatividade crescente, tantos homens e mulheres pretos ainda enfrentam dificuldades para se relacionar entre si? Apesar dos avanços em representatividade e das conversas sobre racismo estrutural, os relacionamentos entre pessoas negras ainda enfrentam barreiras invisíveis. Mais do que escolhas individuais, essas dificuldades são atravessadas por uma herança histórica e cultural que insiste em moldar os afetos.
O peso da história nos afetos
Pensar relacionamento entre pessoas pretas e não começar entendendo com a colonização não nos roubou apenas a liberdade física, mas também a liberdade afetiva é deixar de fora uma parte importante da nossa história. Uma parte que nos ajuda a entender a nossa própria indiferença e muitas vezes “repulsa” pelo que é parecido conosco. Por séculos, corpos negros foram desumanizados, reduzidos a objetos de desejo ou força de trabalho, e não reconhecidos como sujeitos de afeto.
Não posso deixar de citar a escritora bell hooks que em seus escritos nos lembra que o amor, para pessoas negras, sempre foi atravessado pela violência e pelo trauma coletivo. Em Tudo sobre o amor, ela destaca: “O racismo distorceu nossa capacidade de nos amarmos plenamente, e isso se reflete na dificuldade de criarmos vínculos saudáveis.” Hoje, esse legado se traduz em relações nas quais pessoas negras muitas vezes são desejadas em silêncio, mas raramente reconhecidas como escolhas legítimas no espaço público. Tanto os homens como as mulheres acabam sofrendo por essa não escolha.
Esse processo gera um paradoxo cruel. Por um lado, existe desejo e atração; por outro, a dificuldade em assumir publicamente esses afetos. Amar alguém preto é também desafiar um padrão eurocêntrico de beleza e de prestígio social. A solidão como herança. Na clínica vejo muitas mulheres negras e homens negros relatarem viver a chamada essa solidão, esse comportamento de serem muitas vezes desejados no privado, mas não escolhidas no público, não sendo aqueles cujo as pessoas escolhem para se relacionar.
A solidão que atravessa gerações
O termo solidão da mulher negra, amplamente discutido no Brasil, nomeia um fenômeno em que mulheres negras são constantemente preteridas como parceiras afetivas, mesmo quando são alvo de desejo sexual. A filósofa Djamila Ribeiro explica, no livro O que é lugar de fala?, que “essa solidão não é fruto de escolhas individuais, mas de um racismo estrutural que define quem é visto como digno de afeto e quem não é”.
E o que eu tenho percebido dentro da minha prática clínica, colhendo alguns relatos de amigos e seguidores, lendo alguns livros sobre masculinidades, é que essa solidão não é exclusiva das mulheres. Homens negros também carregam estigmas de violência e marginalização que comprometem sua autoestima e sua forma de se ver como parceiros. A psicóloga Neusa Santos Souza, em Tornar-se negro, aponta que esse processo de interiorização do racismo cria uma autoimagem fragmentada: “o negro vive um processo constante de negação de si mesmo, pois lhe foi ensinado que não é digno de amor, nem de reconhecimento.”
O resultado é um ciclo doloroso: homens e mulheres negros duvidando do próprio valor afetivo.
Na clínica psicológica, essa dor aparece com frequência. Muitos pacientes negros relatam dificuldades para se sentirem escolhidos, ou sabotam vínculos por acreditarem que não são suficientes. O racismo não fica fora das relações, ele entra nelas, moldando expectativas, inseguranças e formas de amar.
E isso não é uma questão de fragilidade individual, mas de estruturas. Como lembra bell hooks, “amar, para pessoas negras, exige reaprender a enxergar a si mesmas como merecedoras de cuidado, dignidade e afeto”. E, se não me enxergo como tal, malmente vou conseguir enxergar o outro dessa forma também.
Afroamor: quando amar é resistência
E, por mais que nos últimos anos tenha crescido a valorização do conceito de Afroamor, ainda assim há dificuldades em enxergar pessoas negras em relacionamentos saudáveis e bem ancorados no desejo genuíno e não no medo da solidão. E esse termo trata-se da escolha consciente de relações entre pessoas negras, não por obrigação, mas por reconhecimento mútuo.
Amar alguém que compartilha sua ancestralidade e sua dor pode ser profundamente libertador, mas também extremamente doloroso. Nada é mais libertador do que ter alguém que reconhece suas dores, fragilidades, medos, angústias de perto, mas nada é mais assustador do que estar constantemente de frente para isso na maioria dos dias. Esse movimento é interessante e desafia os padrões eurocêntricos de beleza e afetividade que ainda dominam as narrativas. Como explica Djamila Ribeiro, “o racismo atua até mesmo nos desejos, porque nos ensina a valorizar o outro e a desvalorizar a nós mesmos”. O Afroamor, portanto, é também um ato político, um exercício de ressignificação de si e do outro, mas não também não pode ser algo definitivo e visto como única forma somente. Até por que, se não formos tratados antes na nossa subjetividade e individualidade, nenhuma forma de amor do outro será altamente eficaz de nos fazer felizes e nos sentir amados.
Essa dificuldade não nasce da ausência de desejo ou afinidade, mas da permanência de um racismo que insiste em definir quem merece ser amado, qual corpo se encaixa melhor dentro de uma relação saudável, e qual nosso lugar no mundo dos afetos. Quando duas pessoas negras se escolhem, elas não apenas desafiam esse sistema, mas também escrevem uma nova história de pertencimento e cura.E talvez seja exatamente aí que esteja a revolução: transformar a dor herdada em afeto compartilhado, e a solidão imposta em redes de cuidado e reconhecimento.