Não é rara a pergunta: o amor tem cor? Eu já ministrei uma aula com esse título. Pois bem, amar não é algo que exista fora das trincheiras e das zonas de descanso do nosso cotidiano. Como começamos a gostar de alguém? Nascemos gostando ou aprendemos? Ou seria um pouco de cada coisa, já que trazemos inclinações inatas e também recebemos uma espécie de ensino?
Seja qual for a alternativa mais consistente – e existem estudos que buscam compreender o que nos leva a escolher uma determinada pessoa como objeto do nosso desejo –, o amor romântico é um sistema que postula: a paixão é algo sobre o qual não temos controle, seja sobre o seu curso ou sobre o seu começo. A paixão simplesmente acontece.
No entanto, o mercado afetivo revela uma hierarquia entre os corpos. Estudos de Josephine Apraku mostram que, nos aplicativos de relacionamento, alguns tipos de perfil recebem mais “matches” do que outros. Valeska Zanello tem apresentado evidências de que mulheres brancas, magras e jovens são as mais procuradas nessas plataformas. A partir das leituras de Frantz Fanon é plausível supor que pessoas negras são alvo de uma espécie de fetiche; são desejadas, mas também são vítimas de exclusão.
Quero deixar uma questão para quem está lendo: você já notou pontos em comum entre as pessoas que despertaram seu interesse afetivo-sexual? Entre as paixonites, tais como crushes: você identifica um tipo que se repete? Existe um “padrão”? São pessoas muito diferentes? O pertencimento étnico-racial é irrelevante ou faz parte do seu critério de “escolha”?
Ninguém pode decidir pelo outro como se deve viver o próprio desejo. O que pode ser interessante, diante disso, é mapear as histórias dos seus encontros e compreender os contornos do seu próprio desejo. É importante estar de bem com as próprias escolhas. Quando falamos de racismo, a dimensão afetiva não pode ser esquecida. Numa sociedade que os padrões, ou ainda, estilos de beleza sempre foram hegemonicamente brancos, como fica o imaginário amoroso dessa população? A população étnico-racial branca concentra a maioria dos príncipes e das princesas?
Apenas a aparência dá o tom do desejo? O que produz a vontade de um beijo? De onde nasce a sede por uma boca? Ora, se houver consentimento todo beijo é bem-vindo. Mas, quero fechar esse texto falando de uma das ações mais bonitas do Movimento Negro no Brasil. Em 1991, o Movimento Negro Unificado lançou em 1991, a campanha: “beije sua preta em praça pública”. Diante do racismo fez de tudo para que a população negra desconfiasse de si mesma, essa frase é simplesmente revolucionária. O amor se tempera com orgulho, admiração, cuidado e alegria, mas também sabe conviver com as emoções que nos lançam em estado de luta, fuga ou paralisia – como o medo e a raiva. Em um mundo marcado pelo racismo, beijar uma mulher preta em público vai além da demonstração de carinho; trata-se de um singelo e poderoso ato político.
Autor: Renato Noguera