Por Thayná Santana
A nossa capacidade de amar e nos reconhecer como seres dignos de amor por muito tempo foi negada. Crescemos em lares onde o desamor mora, em locais que reproduzem a lógica da supremacia racial branca, que nos rouba a possibilidade de reconhecer nossa potência e beleza. Um dos espaços mais avassaladores, quando pensamos nessa estratégia do racismo, é o cotidiano — na escola, no trabalho.
Demorei muito tempo para enxergar os meus semelhantes como seres dignos de amor; assim como não os enxergava, também demorei a enxergar isso em mim mesma. Para além da beleza e do
físico, é importante depositar a afirmação de que somos seres inteligentes, intelectuais e capazes.
Em “Vivendo de Amor”, Bell Hooks explora essa lógica de como crescemos em lugares que não nos acolhem, e como essa jornada é difícil, especialmente em espaços que nos repudiam e nos excluem. Crescemos permeadas por ambientes repugnantes, que tratam as mulheres negras como seres exóticos, brutos e raivosos. Essa é a reviravolta: cultivar o sentimento do amor em nós e nas nossas relações, quando tudo o que conhecemos e nos foi ensinado é o desamor.
Referências de poder e autonomia
Vejo que estamos trilhando novas perspectivas, novas visões de como nos amar e expressar a negritude. Vivemos um período dessa geração em que mulheres negras estão reescrevendo suas histórias, contando versos sobre legados de rainhas que lideram seus próprios caminhos, criando novas referências na literatura, música, ou intelectuais que falam de autonomia, confiança e independência financeira — ressignificando que nós podemos, sim, nos ver como condutoras e lideranças do nosso próprio legado.
Afinal, essa também é a lógica do amor. Um sentimento que exige ação, que nos impulsiona a evoluir, e faz expandir esse afeto para outras mulheres ao nosso redor. Pois bem, se esse sentimento se manifesta em nós mesmas, também deve estar presente nas nossas relações — familiares, afetivas e, principalmente, na forma como estamos construindo nossos vínculos amorosos.
Em Afetos, de Gabri Oliveira e Karina Viper, elas dizem: “O autoamor começa quando a gente entende que precisa de amor”. Cito essa frase tantas vezes porque essa expressão define com o que o significado da palavra a partir da nossa perspectiva: a possibilidade de praticar o amor interior, com capacidade de nos reconhecer com carinho, cuidado, respeito e responsabilidade. Esse amor nos convida a olhar nossas jornadas com mais afeto e a ser reconhecer pela própria grandeza.
Expor as vulnerabilidades
Passei anos vivendo em relações que não me cabiam ou que me colocavam em lugares onde eu não podia expandir minha vivência e ser, de fato, quem sou: uma mulher negra e bissexual. Com o tempo, aprendi que relacionamentos não são apenas um lugar de abrigo, mas também espaços onde podemos expressar nossas vulnerabilidades com segurança.
Isso está diretamente ligado ao autoamor, pois ele nos prepara para lidar com nossas fraquezas e nos capacita a viver o melhor de nós mesmas com confiança. Existe o medo, medo de falar sobre traumas, de adentrar o desconhecido com parceiros e parceiras, interagir com os nossos, da rejeição, de expor uma versão de nós que poucos conhecem. Mas essa é a verdade da vulnerabilidade: ela nos faz humanas. E, historicamente, isso foi negado as mulheres negras porque não tínhamos esse direito, foi imposto que precisamos suportar tudo e aguentar o máximo possível.
O relacionamento pode ser nosso refúgio, assim como o autoamor deve ser a ponte que fortalece esse elo desde o início. Ele nos guia a não aceitar menos do que merecemos. É preciso falar também de exaltar a nossa grandeza e potencialidade. Não nego o racismo que nos cerca, especialmente no que diz respeito à solidão. Mas precisamos destacar o quanto a nossa potência é a chave para construir novas relações, sobretudo com nós mesmas.
No novo álbum de Luedji Luna, “Um Mar pra Cada Um”, ela canta sobre a riqueza de falar sobre amar e ser amada e de viver o amor que desejamos. Não o amor romântico idealizado pela branquitude — superficial, idealizado e inalcançável — mas um amor real, leve, que vale a pena ser vivido. Um amor que mulheres negras merecem e estão prontas para viver em suas vidas.
Porque até nisso o medo nos persegue: amar requer coragem. Coragem de não estar no controle. Coragem de vivenciar o amor como desejamos ser amadas, tratadas e valorizadas. Talvez, um dos caminhos nessa jornada do amor e do autoamor, seja sair do modo automático que nos foi imposto e adentrar o nosso modo real de viver. E, caso esse lugar não nos acolha, que saibamos sair — porque ele não nos pertence.
Sobre a autora
Sou a Thayná Santana, jornalista formada pela UNESP. Atuo também como apresentadora, podcaster e criadora de conteúdo. Acredito no poder da comunicação como ferramenta de transformação social e pertencimento, contribuindo com questões sociais e culturais.