
“Maat significa “o real”, “a realidade”, isto é, aquilo que é genuíno e autêntico, em oposição ao artificial ou espúrio,é a realidade como um todo, isto é, a totalidade de todas as coisas que possuem realidade, existência ou essência, aquilo que existe objetivamente. De fato, é aquilo que tem a existência necessária e não apenas contingente. É por isso que está em toda parte e permeia toda a criação. Significa também que é pertinente a todas as esferas da realidade, a divina ou a sagrada, a cósmica, a física, a política e a familiar. Em suma, Maat é um conceito exaustivo e abrangente. Essa inclusividade faz dela um todo ordenado e esteticamente coerente; é por isso que também significa a ordem da totalidade da existência. Assim, tudo no universo que é real e ordenado é a expressão ou manifestação de Maat.
Em particular, quando na sociedade os seres humanos se comportam da maneira correta ou agem da maneira correta, eles estão manifestando Maat. Daí esses outros significados de Maat, como “verdade” “justiça” “retidão, “correção”. No entanto, falar de Maat é inútil, se não for praticado. Na verdade, Maat é um modo de vida e espiritualidade.
Maat aparece nas realidades africanas como categoria de reconhecimento no modo de construção da realidade, base que sedimenta os modos culturais, como um sistema de valores, espinha dorsal de todos os elementos culturais do Ser africano. Valores impregnados de fácil compreensão que fundam a matriz reprodutora das ações diárias incorporados nos aspectos mais profundos, significativos e originais de nossa formação enquanto pessoa.
Maat é então como uma divindade, podendo ser um invocativo, uma tradição, ou seja, um sistema filosófico que é principio poderoso. O ser histórico africano é de origem mítica “Vai além do visível, do pensamento e do divisível” como sinaliza a grandiosa Vanda Machado, demostrando que este ser passa pelo sentido de uma vivencia natural, alimento vital de suas verdades, permitindo seu próprio desenho existencial, potência motriz da comunicação social e espiritual no dialogo comunitário.
Sobre a autora: Katiúscia Ribeiro é uma mulher preta nascida e criada num quilombo no Rio Grande do Sul. Mulherista africana, filósofa e doutora em Filosofia Africana pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde há mais de uma década se tornou a primeira pessoa a escrever uma monografia acerca da Filosofia Africana.