Como o conceito de ser útil afeta pessoas negras nas relações

Alguns crescem vendo mães e mulheres negras se expressando por meio de presentes, preparando comida para a família inteira e organizando a casa. Acredito que essa também foi como te ensinaram que o amor é compartilhado — que servir é uma forma de demonstrar e receber afeto.

Para mulheres negras, alguns conceitos femininos construídos socialmente foram atribuídos a nós, saber cozinhar, passar roupa, estar sempre bem arrumada e nos exigem sermos impecáveis. Quando essas expectativas se refletem nas relações afetivas, acabamos reproduzindo a lógica de que precisamos ser úteis para sermos amadas.

Como construímos e diferenciamos atos de demonstração também impacta essa percepção. Ao definirmos “linguagens do amor”, muitas vezes reproduzimos uma lógica capitalista, onde até o amor se torna um espaço de produtividade e isso se manifesta mesmo nos vínculos que deveriam ser seguros, saudáveis, recíprocos e espontâneos.

No episódio 89 do podcast “Conselhos que Você Pediu”, a jornalista Isabela Reis fala sobre como a teoria das linguagens do amor se baseia em construções sociais, e destaca outras formas de demonstrar amor, como apoiar a autonomia e a individualidade do parceiro. O episódio também traz pilares importantes para qualquer relacionamento, incluindo casais LGBTQIPAN+, como reconhecimento, carinho, honestidade, confiança, respeito e comunicação

É aqui que entra a perspectiva da decolonialidade, que propõe romper com as relações de poder e questionar a ideia de que pessoas negras existem a serviço do outro, ideia que apaga identidades e subjetividades. Essa lógica nos desumaniza e reforça padrões, como o esforço constante para alcançar padrões inatingíveis, até mesmo dentro dos relacionamentos.

Essa lógica não se aplica apenas às relações amorosas, mas também às familiares e de amizade. Quantas vezes mulheres negras são colocadas nesse lugar de escuta, apoio ou esperam que tomem à frente para resolver decisões alheias?

Se não seguimos essa lógica de poder, passamos a não ser vistas como úteis porque não teríamos algo a oferecer. Repetir esse ciclo de demonstração por meio da utilidade é, muitas vezes, uma forma de buscar visibilidade, reconhecimento e validação.

A psicóloga e palestrante Ariane Kwanza, que trabalha com uma afroperspectiva, destaca como essa necessidade de ser útil está relacionada à busca por aceitação — e como usamos esse comportamento é condicionado para garantir pertencimento e evitar rejeição. Ela também aponta que, ao tentarmos assumir o controle de tudo, acabamos construindo relações baseadas em expectativas irreais, como forma de autoproteção, o que nos leva, inevitavelmente, à frustração.

Aprender a amar de outra forma e buscar nosso valor além do serviço, envolve um caminho de retorno à autenticidade. Significa não se comparar com vivências que não se aplicam à nossa realidade e, assim, viver o amor com liberdade e verdade — sem fantasias.

Baixe o Denga Love e tenha você também uma história de amor.